Os efeitos da parabenização excessiva.

Parabénização excessiva

Imagine a seguinte situação: Seu filho de 4 anos joga toda comida que está no prato no chão.

Naturalmente, você irritado com o comportamento, grita para ele para, retira a criança da cadeira e de forma firme pede para que ele limpe a bagunça.

Contrariado, ele não limpa logo de cara. Você insiste e ameaça a perda do brinquedo favorito. Finalmente depois de 5 minutos de gritaria ele limpa a comida do chão. 

Após o término da limpeza, com ele ainda reclamando, soa um grito de vitória: "PARABÉNS FILHÃO! Nossa como você é obediente! Ai que orgulho! Limpou toda a bagunça! Você é muito inteligente!".


O que torna esse tipo de situação incoerente? 

E como, sem querer neste cenário, você pode estar contribuindo para que momentos como esse continuem acontecendo?


Estudos recentes tem apontado que a parabenização excessiva pode estar gerando problemas graves para as novas gerações. Em resumo, boa parte destes estudos tem concluído que quando elogiamos com base em habilidades natas, (ex.: inteligência, beleza, força física) e não pelo esforço (ou por ter superado adversidades até alcançar o resultado), a criança tende a focar nas aparências (parecer obediente) e não em ter de fato aprendido (compreender que não é necessário jogar o prato de comida no chão para demonstrar insatisfação). 

Além disso, crianças que são parabenizadas em excesso, de forma não sincera e superficial, evitam e não persistem diante de desafios. Outros estudos apontam essa prática como uma das responsáveis pelo aumento nos índices de transtornos de personalidade como o narcisismo.  

O abuso de abordagens "motivadora" contribuem com:

  • a preocupação com o que os outros estão pensando ao em vez de como a criança se enxerga; 
  • deturpa a realidade de quão bem executadas as tarefas estão;
  • e fazem com que a criança lide de forma negativa com seus fracassos aumentando a desistência perante desafios simples. 

Esse é o momento que alguns de vocês podem estar pensando: "Mas o meu filho vai receber toda a parabenização do mundo! Ele realmente é o melhor, mais inteligente, lindo e perfeito do Universo! Por que você está julgando até mesmo como eu contribuo para a autoestima do meu filho?"


Calma! Ninguém está dizendo o contrário.

Estes estudos também apontam que quando usamos a parabenização na dosagem adequada e de forma específica ela pode contribuir imensamente no desenvolvimento físico e emocional infantil! 


 Mas como fortalecer a autoestima da criança sem abusar da parabenização?


No início do post te convidei para imaginar uma situação que exemplificava um cenário cotidiano e de uma maneira de corrigir o comportamento.

Agora pondere as seguintes questões: 

  • Qual foi a aprendizagem que você acredita que a criança tirou da interação?
  • A criança conseguiu compreender claramente o que é esperado sobre seu comportamento?
  • O cuidador conseguiu reagir de forma clara para que isso não ocorra novamente? 
  • Esta abordagem pareceu ser uma maneira de conseguir fazer a criança OBEDECER ou para ENSINAR algo novo?
  • Existiria uma outra forma de demostrar satisfação onde a criança se sentiria empoderada para continuar agindo adequadamente?

Perguntas difíceis não é mesmo? 

Nesse caso a criança foi privada de uma resposta palpável sobre seu comportamento além disso não houve uma aprendizagem paupável em relação a experiência. Provavelmente ela irá testar este mesmo comportamento inúmeras vezes, pois mesmo após fazer algo inapropriado ela recebeu uma mensagem positiva. Isso é extremamente confuso para alguém que está aprendendo a interagir, se controlar e compreender seus sentimentos.


"Bom, eu joguei a comida no chão. Eu fiquei muito bravo, fiz manha, me joguei no chão para não ter que limpar. Limpei a bagunça que eu fiz. Continuei chorando. Quando terminei de limpar fui aplaudido por executar algo que deveria ser uma consequência do meu comportamentO E não um incentivo! Resultado: sempre que irritado devo jogar coisas no chão pois com tanto que eu limpe está tudo certo."


Percebeu onde a comunicação falhou?

Então quais seriam outras maneiras de lidar com momentos parecidos?

  1. Identifique se a situação merece um elogio ou um agradecimento - Agradecer a criança por ter feito a parte dela mesmo quando ela erra estabelece um relacionamento de responsabilidade e não de obediência. Quando usamos as boas maneiras para nos comunicarmos com nossos pequenos estabelecemos uma troca que incentiva o respeito pelas coisas, pessoas e situações.
  2. Seja específico quando utilizando a parabenização - Em relação a situação que mencionamos no início do post, o que você sente que merece um elogio? A criança ter limpado a comida do chão ou foi o fato dela ter conseguido se controlar o suficiente para eventualmente limpar? Percebe a diferença? EX: "Filho muito obrigada por ter limpado a comida do chão, eu percebi que foi difícil pra você se acalmar e fazer o que eu estava pedindo. Parabéns por ter conseguido."
  3. Reconheça a frustração da criança e proponha trabalhar com ela para alcançar soluções - "Filho eu percebi que você ficou muito frustrado pois eu estava demorando para te tirar da cadeira. Quem sabe você não está pronto para descer sozinho?" Situação desconfortáveis como a do início do post podem ser um sinalizador de que a criança necessita de mais espaço para desenvolver suas habilidades físicas e emocionais. O fortalecimento da autoestima se dá a capacidade dos cuidadores de identificarem o momento certo para permitir novos desafios dentro do que a criança já apresenta ser capaz de fazer.

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