Por que bater em crianças não deve ser uma opção

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Quanto mais nossa compreensão sobre o funcionamento da mente humana evolui, mais informações e alternativas se encontram disponíveis em termos de identificarmos opções mais eficientes quando o assunto é a disciplina infantil. Então por que temos tanta dificuldade em aceitar as descobertas sobre os cuidados infantis que nos permitem aperfeiçoar a maneira com que cuidamos das futuras gerações?

Um exemplo disso é a aceitação de que “bater como maneira de educar” é eficiente. Mesmo que essa abordagem tenha sido identificada como ineficiente e ser responsável por causar diversos malefícios para o desenvolvimento físico e emocional do indivíduo, com base em anos de pesquisas, muitos pais continuam não considerando outras alternativas para educar.


O fato de usarmos nossas experiências para normalizar atitudes inadequadas enquanto criando um outro ser humano não justifica agredir fisicamente uma pessoa com o pretexto de ensinar.


Essa postura só reforça uma forma antiquada e desesperada de lidar com comportamentos e reações que nem mesmo nós, adultos, sabemos gerenciar. Todo o conhecimento que temos disponível hoje que sugere mudança é resumido a um discurso simplório que começa mais ou menos assim: “mas eu apanhei e sobrevivi” e termina com “e eu não virei marginal”, o que reforça ainda mais a necessidade de alterarmos nossos conceitos sobre o que de fato implica educar e que eles imploram por mudanças e evolução.

Em um de muitos estudos conduzidos sobre o assunto, o pesquisador Christopher J. Ferguson, do Clinical Psychology Review, observou que: "os impactos da palmada e a punição corporal resultam em desfechos negativos para crianças, incluindo externalização e internalização de problemas comportamentais e desempenho cognitivo.”

Mesmo assim, existe uma forte resistência em abandonar essa prática que claramente resulta em consequências negativas e duradouras. Algumas delas são: problemas de autoestima, desenvolvimento de inseguranças e medos, comportamentos agressivos, ansiedade social, problemas cognitivos, comprometimento do vínculo entre a criança e o cuidador a longo prazo, crises de ansiedade, entre outros.

Iniciativas como a “Lei da Palmada” ou “Lei do Menino Bernardo” são uma de algumas iniciativas que visam conscientizar e responsabilizar aqueles que acreditam que castigos e punições físicas são maneiras aceitáveis de disciplinar. Em resumo “a Lei da Palmada é o nome informal da lei nº 13.010/2014 que proíbe o uso de castigos físicos ou tratamentos cruéis e degradantes contra crianças e adolescentes no Brasil.”

O problema aqui é que estamos tentando defender o direito de bater em crianças e não o direito de buscarmos conhecimento para verdadeiramente contribuir com o desenvolvimento infantil saudável. As prioridades, no caso, acabam se invertendo.


Existem diversas formas de educar que são imensamente melhor e não incluem agredir, mas que também exige que nós cuidadores busquemos nos atualizar e esforçar para encontrar alternativas melhores.


Tudo começa com a compreensão do objetivo de disciplinar. De acordo com o livro "Disciplina Sem Drama", de Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson: Disciplina eficaz não significa somente que estamos impedindo comportamentos ruins ou promovendo comportamentos bons, e sim que, ao mesmo tempo, estamos ensinando habilidades e nutrindo conexões no cérebro da criança que irão ajudá-las a tomar decisões melhores e gerenciar-se melhor no futuro. É importante lembrar que, ao disciplinar, estamos dizendo “não” para o comportamento e jamais para a criança.”

Esse conceito traduz o processo necessário para a criança aprender a controlar seus impulsos e racionalizar sua decisões de acordo com o que é adequado para cada situação, e que se encontra dentro do seu limite e o dos outros. Esse tipo de distinção é o que se perde quando focamos em problematizar comportamentos esperados para certas fases do desenvolvimento e/ou levamos estes desafios para o pessoal.

A criança é o foco! Se estamos enfrentando obstáculos para fazer esta leitura, precisamos cuidar melhor das nossas necessidades pessoais.

  • O que está faltando para mim no momento em que sinto que preciso agredir a criança?

  • Que carências próprias eu preciso suprir para que não exista essa transferência para a criança?

Uma vez que somos capazes de responder estas perguntas fica mais fácil evitar as armadilhas da:

  • Vitimização (nossa e/ou da criança)

  • Inflexibilidade (nossa e/ou da criança)


É importante lembrar que as birras não acontecem somente por falta de obediência, mas pelas seguintes razões:

  1. Inabilidade de compreender que suas vontades estão sendo compreendidas

  2. Impulsividade causada pelas partes do cérebro que se encontram mais desenvolvidas e ativas durante esta fase do desenvolvimento

  3. Rigidez ou a necessidade de controlar como e quando as coisas acontecem

  4. Caos ou o desafio de fazer sentido de emoções e sentimentos.

Disciplinar é investimento a longo prazo que precisa ser respeitado. Jamais iremos impedir as crianças de se comportar de forma inadequada. Esse poder pertence somente à criança. O que podemos fazer é auxiliar a criança a desenvolver habilidades que a permitem gerenciar suas vontades, emoções e impulsos enquanto respeitando os outros.